A lenda do Egas Moniz e do rei D. Afonso Henriques

A lenda do Egas Moniz e do rei D. Afonso Henriques

O cheiro, as ondas de vapor a subirem em direção ao teto de madeira da cozinha, a chávena da avó Josefa pousada na mesa, quente por causa da Infusão acabada de fazer… tenho tantas memórias, quando chega a altura da Páscoa (aliás, das épocas festivas).

Podia ir mil vezes a Tulhas (Resende), que dessas mil vezes ia recordar-me da lenda que o avô Tomás contava, do crepitar da lareira na noite fria de 15 de abril de 1994 (um dia antes do domingo de Páscoa) ou das risadas da prima Melanie e do meu querido primo Jonathan.

Se fechar os olhos, ainda consigo escutar o banco onde a avó guardava as mantas, a ranger por causa do avô Tomás, que se sentava por lá a contar as suas estórias, enquanto esfregava as mãos e sorria junto à lareira, no canto da sala de estar.

Este é um episódio de infância, onde uma lenda ganhou vida e voltou a ser relembrada nesta Páscoa.

A alegria que era ir até Tulhas ver a família

A aldeia de Tulhas fica no concelho de Resende e muito perto de uma outra aldeia chamada Cárquere.

Esta última, conhecida desde os tempos de Egas Moniz, é uma atração turística que faz parte da Rota do Românico (por causa do Mosteiro de Santa Maria de Cárquere).

A minha mãe (Filomena) é filha da Dona Josefa Ribeiro e do Senhor Tomás Ribeiro; infelizmente ambos já faleceram, embora continuem bem presentes nas nossas vidas.

Ela casou muito cedo com o meu pai (o Zé Tó) e, logo após a cerimónia, acabaram por ir para Lisboa, à procura de oportunidades e de uma vida melhor.

A cada passo, lá vinham eles para cima, visitar a família e os meus avós, no Natal, na Páscoa ou na época das vindimas (quando o meu tio Carlos, irmão da minha mãe, vinha de férias da Suíça, juntamente com os meus primos e tia).

A minha infância foi passada entre Tulhas e Lisboa, onde cresci a sentir o cheiro das plantas aromáticas, da caruma dos pinheiros, da terra dos socalcos (quando visitava a aldeia) e contrariamente, a viver a azáfama e correria da capital.

Qual é a melhor memória que eu tenho? Possivelmente o dia em que este episódio aconteceu, por ter sido raro, especial e muito marcante.

Eu recordo-me muito bem do dia 15 de abril de 1994, pois na cozinha havia um calendário e o dia 13 de abril estava riscado. A minha avó assinalava o momento em que o coelho da vizinha “se deitava” com as coelhas dela (assim ela sabia quando as coelhas iam parir).

Sei que foi uma paródia, quando lhe perguntei porque estava o dia 13 riscado em vez do dia 16, com ela a tentar explicar o que isso significava, enquanto o avô Tomás fazia piadas e metia-se com ela.

Só mais tarde, quando tinha uns 11 anos, é que entendi verdadeiramente o que aquilo significava, por causa das aulas de ciências na escola.

Esta memória fica completa com a presença dos meus primos e tios na cozinha, momento pouco habitual, visto que o meu tio Carlos, a tia Salomé, a Melanie e o Jonathan, só vinham a Portugal no verão.

O cheiro, as ondas de vapor a subirem em direção ao teto de madeira da cozinha, a chávena da avó Josefa pousada na mesa, quente por causa da Infusão acabada de fazer… esta imagem vem desse dia, pois a avó Josefa preparou no final da tarde a bebida com plantas acabadas de apanhar.

Saiu por uns momentos, desceu as escadas que davam para o barracão, caminhou uns 50 metros em direção aos terrenos de cultivo da vizinha e meteu-se por um carreiro, que ia dar a um riacho.

Por ali colheu tudo o que precisava e depois voltou até casa, ferveu a água numa chaleira de alumínio e depois o resto já se sabe.

Para além disto, recordo-me que estava muito frio, pois tínhamos todos uns casacos grossos e o meu tio Carlos dizia que parecia que estávamos em Zurique. 

Aquele final de tarde foi passado a beber uma Infusão quentinha e a escutar o avô Tomás, a contar a sua lenda favorita.

A lenda do Egas Moniz e do rei D. Afonso Henriques

Esta é uma lenda com mais de 900 anos, mas apesar disso para o avô Tomás era como se fosse uma estória muito recente.

Ele contava-a com tanta intensidade, carisma e alegria, que todos ficávamos arrebatados com tamanho jeito para contar estas peripécias.

Ora, a lenda era a seguinte:

Segundo os antigos, Egas Moniz, um dos fidalgos mais ricos do Condado Portucalense no século XII, sonhou um dia com a Nossa Senhora, onde lhe disse que devia levar Afonso Henriques (na altura com 6 anos) a uma ermida em Cárquere.

O intuito? “O rapaz, coitadinho, tinha nascido com uma deficiência, era para ser curado” – dizia o avô Tomás.

Na sala, eu, a Melanie e o Jonathan riamo-nos muito, pois o avô levantava-se do banco e imitava o menino Afonso Henriques, enquanto mancava de uma perna e falava com uma voz mais juvenil.

Contava sempre com muito orgulho como a vinda a Cárquere (com passagem por Tulhas, claro) tinha sido determinante para a cura do futuro primeiro rei de Portugal, mas também da construção do Mosteiro de Santa Maria de Cárquere.

“Aprendam meninos, uma promessa é sempre para cumprir, devemos honrar a nossa palavra!” – dizia o avô Tomás, enquanto bebíamos vários goles da Infusão preparada pela avó.

Esta referência era tida por causa de Egas Moniz que, segundo a lenda, tinha prometido construir um monumento, caso um milagre acontecesse e Afonso Henriques ficasse curado.

A melhor parte nem era esta, mas sim aquela em que o avô Tomás (com uma grande dose de mentira) dizia que Afonso Henriques tinha sido trocado pelo caminho por um familiar seu, ou seja, o menino doente tinha sido trocado por um “jovem com apelido de Ribeiro, saudável, forte e capaz de segurar em duas espadas ao mesmo tempo”.

O serão continuou noite dentro, com muitas risadas, abraços, carinhos e sempre com as chávenas cheias de Infusão.

Voltei à minha infância, com a ajuda da Infusões com História

O título deste artigo descreve a ajuda que recebi da Infusões com História.

Precisamente 28 anos e um dia depois do avô Tomás ter contado a lenda do Egas Moniz e do rei D. Afonso Henriques naquela noite gélida, mas ao mesmo tempo tão calorosa, levei a minha família a visitar a casa dos meus avós.

O meu filho José António tem agora 5 anos, precisamente os mesmos anos que eu tinha na Páscoa de 1995.

Apesar da presença de algum pó, teias de aranha e de a casa estar à venda, acabei por levar uma Lata de Infusão do Mato, um Bule, vários copos de vidro duplo e ainda um fogão portátil, para assim aquecer a água.

Após umas varredelas e portas abertas (para arejas a casa), tudo estava pronto.

Enquanto preparava a Infusão, no meio daquela cozinha, o tempo voltou atrás, a voz do Senhor Tomás parecia que estava no meu ouvido e as memórias surgiram.

É certo que não tínhamos plantas aromáticas acabadas de apanhar, mas sentíamos (eu, o meu filho, marido e mãe) os Aromas e Sabores sublimes da Infusão do Mato, que tão bem me fazia lembrar a Infusão da avó Josefa.

Que conclusão tiro desta experiência? Uma coisa é certa: graças à ajuda da Infusões com História, lembrar-me-ei da Páscoa de 2022 para sempre.

Quanto à Páscoa de 1995, levo-a na minha memória até partir.