“Infusões com História bebem-se do mesmo modo que se leem os livros”

“Infusões com História bebem-se do mesmo modo que se leem os livros”

Escrever um texto sobre a minha biblioteca traz à cabeça o ganho de a fazer parecer real.

Depois, o poder enfronhar-me em certos desvãos menos conversados e talvez cuidar que possa ser lastro para memória futura. A bem dizer, nunca me imaginei dono – e a palavra aqui assim escrita até me ressoa estranha – de tão prazeroso acervo. Já o tentei contar, mas desisti.

Pareceu-me escusado. Também não o tenho ordenado segundo moldes informáticos.

A bem dizer, todas as bibliotecas são edições de autor e a minha não é excepção.

O início da paixão pelos livros e a construção da biblioteca

Os primeiros livros resultaram de ofertas na juvenilidade, continuadas por compras avulsas a preços de saldo em livrarias esconsas na cidade do Porto.

Uns ainda vinham com as folhas coladas, que tínhamos de cortar literalmente à faca. Um prémio de 300 livros no concurso televisivo “Acontece” também favoreceu o agregado.

O caudal livresco tinha já água de sobra para se fazer à vida. Livros de bolso, de viagens, os grandes mestres da pintura e da arte em geral, pesados calhamaços de fotobiografias, diários – uma voragem aqueles iniciais de Miguel Torga e Vergílio Ferreira -, colecções, livros de história, ciência, enciclopédias, futebol, ciclismo, montanha e escalada, os romances, a literatura infantil e juvenil, a de índole médica e pediátrica, e sobretudo a poesia.

A minha biblioteca, se não fosse a poesia, não valia a pena. A nacional, à cabeça. A de língua castelhana, igualmente em lugar de favor. Aqui também estão os livros que tenho escrito.

Pô-los ao lado dos outros oferece-me uma desusada sensação de vaidade espúria. Não coloco nenhum afã na procura de primeiras edições.

E em relação a obras autografadas, o mesmo desleixo. Que me lembre, tenho a Poesia de Eugénio de Andrade: Ao Abílio com simpatia. Eugénio. A minha biblioteca não pára de se mover.

É de águas movediças, por temperamento instável.

Características da Biblioteca pessoal

Volta e meia há livros que mudam de lugar: em busca de um espaço que se possa adequar melhor ao seu tamanho; para estarem com os da sua laia; porque novidades de maior valia lhes vieram ocupar a estadia; para acertarem com a cor do vizinho; ou porque muito simplesmente me apeteceu.

Os livros ocupam todas as prateleiras de madeira, em três das faces de um quadrado com quatro metros de lado, sendo que um deles tem a porta e uma fiada de cinco armários alinhados a partir do chão até à altura da minha cintura.

Guardam caixas de sapatos com papéis avulsos e tudo o que não se acomoda noutro local. O virado a sudoeste tem uma janela aberta para a divagação, ladeada por uma parede atulhada de quadros com fotos. Há mais caixilhos noutra parede, atrás da porta.

Escolhi a seguinte forma de ordenar os meus livros: colados ao tecto, onde só de escadote se chega, vão sendo relegados os de menor interesse ou uso; à altura dos olhos ficam os de maior manuseamento ou importância; e num dos espaços rente ao chão descansam as recordações de dezenas de álbuns de fotografias.

Os livros gostam de estar encostados uns aos outros, mas não muito. E eu detesto que me resistam quando os quero tirar do lugar. Ainda não cheguei ao ponto em que, não havendo mais espaço na vertical, os terei que amanhar mesmo na horizontal a travejar os mais antigos.

O que mais gosto de fazer neste espaço tão íntimo?

Por vezes, gosto de ver por ali pequenos retratos, objectos para ancorar a memória e outro tipo de lembranças, mas há ocasiões em que não. Então, retiro quase tudo e reservo aos livros o direito de se bastarem a si próprios. Entro na biblioteca várias vezes ao dia.

Para lhe dizer presente, para escolher um livro ao acaso na chã tentativa de lhe arrancar um verso inusitado – tenho os meus preferidos e eles sabem disso – ou apenas para a olhar.

Há um prazer silente em admirar os livros na hora em que o sol descai ou quando a luz amarela de um candeeiro os acolhe.

A branca abafa o agrado e apaga de morte o aconchego. Gosto de manusear os livros e também tenho o hábito de os abrir numa das primeiras páginas para redescobrir os meus passos, nessa habitual nota sobre a data, local de aquisição e um ou outro pormenor que na altura tivesse julgado pertinente registar. E lembro-me quase sempre desse passado.

De futuro, quem o fizer apenas o poderá imaginar e – quem sabe? – sorrir. A minha biblioteca não se escusa de ter pó. É assim por decreto. Já me perguntaram se os tinha lido todos. Achei a questão bizarra. O prazer não está só na leitura, como bem sabem os amantes dos livros.

Muito mais do que o prazer da leitura

Não li tantos quantos gostava de ler. Por vezes, trago-os com a simples intenção de os ter ou de um dia os poder ler. Ficam ali à espera, em banho-maria. Alguns, por motivos vários, nunca terão a sua hora. Há quem diga que somos os livros que lemos, mas eu não sei. Também não sei se alguém é melhor ou pior pessoa por se dedicar à leitura.

Custa-me deixar um ou outro a meio, mas já o tenho feito, embora contrariado. Se mal o escolhi, que o aguentasse. Há ainda livros que toda a gente diz que já leu (alguns clássicos) e eu não. Gosto de emprestar livros, mas sofro tanto como o poeta Roger Wolfe nestes versos: e agora vejo aberto na prateleira/um vazio que em silêncio me censura.

A minha biblioteca, apesar de já não ter grande espaço para mangas, ainda dispõe de uma esperança de vida que pode ser esticada consoante a necessidade. Para lá disso, tenho há algum tempo depositado noutro local um número considerável de revistas, jornais, livros e cadernos escolares do tempo da meninice, adolescência e idade adulta.

A minha biblioteca também tem a função de escritório da casa. Quando penso no seu futuro, rala-me imaginar-lhe um fim menos digno. Não gostaria que fosse vendida ao desbarato, exposta sem melindre numa qualquer obscura feira do velho. Desejar-lhe-ia outra sorte, mas há destinos que já não têm nada a ver connosco.

As Histórias das Bibliotecas e das Infusões

Todas as bibliotecas têm uma história. É feita do passado de quem as sonhou e depois iniciou, fazendo-as, entretanto, avançar dia após dia até ao presente. As Infusões com História, como tantas coisas na nossa vida, são um espelho dessa vontade.

Para além disso, a retirada de um livro da estante para depois ser lido acaba por correr em paralelo com o acto de preparar e beber uma infusão. Desde a razão da sua aquisição até ao último gole, em que já não havendo mais páginas para prolongar o prazer, ele se eterniza gravado no côncavo da nossa memória.

Mas é nesse intervalo, que justamente acertamos contas com os pequenos gáudios que a vida nos dá: o aspecto, a cor, o cheiro, o gosto e outros inomináveis, tão dos livros com das infusões.

As Infusões com História são elas mesmas – no que as declara e de concreto – um acumulado de história, que só pode caber, como um todo, no retiro de uma biblioteca.

Esta busca da perfeição, entre os muitos saberes escorados no silêncio das bibliotecas, atravessa de forma indelével a natureza, a botânica, a química, a geografia, o design, a cultura e a história propriamente dita, que são a argamassa de que são feitas.

As Infusões com História bebem-se do mesmo modo que se leem os livros.

Nota sobre este artigo de Blog

Este texto foi preparado por Abílio Guimarães, Médico Pediatra e Escritor.